terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Um mundo além do mundo.

Posso estar no pior dos dias.
Mas...
Aqui é meu lugar.
A sala de aula.

Quando entro na sala, meu mundo é outro.
Nenhuma dor minha se sobrepõe a ver meus alunos.
Um abraço sempre será super bem-vindo.
Tudo se resume a lembrar que, ali, sou responsável por muitos (ainda que por uma hora-aula).

Lá fora, estão meus problemas.
Minha dor.
Meu desconsolo.

Mas não a sala de aula.
Ali é meu palco.
Meu trabalho.
Meu sorriso.

O resto? Quando sair do expediente,  eu sinto.
Agora não.
Agora, eu sou a professora.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Uma coisa que sonhei no sábado,  foi um sonho estranho.
Sonhava que, em uma festa que seria referente a mim (o que é estranho até mesmo para minha pessoa, visto que sou péssima em organizar festas), a pessoa que escolhia para a chamada "companhia definitiva" (ponho aspas porque nada é, de fato é direito, definitivo) não interagia comigo nem com as pessoas presentes. Enquanto o passado ali estava, as pessoas que me importava estavam ali e até mesmo surgiu um pedido de retorno à um status quo por mim deixado um dia, a "definitiva" sumia por entre as pessoas. Eu a procurava e sofria imensamente. No entanto, ao fim do meu sonho, estava a tirar uma foto com as pessoas que ficaram, sendo que uma delas me punha nos ombros e eu proclamava o grito de alegria que os anos tornaram intrínseco em mim.
Analiso o sonho dias depois do carnaval, dias em que não sei se me senti feliz de fato, e percebi uma verdade terrível em mim.
Não sei se sou capaz de amar.
Ou talvez eu não seja feita para amar.

O amor para mim tem um toque de renúncia que não sei se quero. Para eu amar, é sempre necessário que eu mude a mim mesma, que eu tenha que me curvar ao que o outro quer - quando geralmente o outro tem uma vida fechada e o resto do mundo só esperar de mim a adaptação para atingir "a perfeição".
Uma dessas pressões ajudou a que uma história me fosse considerada impossível,  embora nunca estivesse  ciente do valor do sentimento que tinha em mim sobre a história. O carnaval me trouxe memórias e eu senti saudades quiçá inconfessáveis.
Pode parecer depressão.  Pode parecer que sou vítima de algo que me oprime e me dói - embora eu, francamente,  não quero me ver com esta visão tão fraca. Na verdade, eu estou dividida entre o que eu realmente espero do amor e de quem eu amo.
Se é que o amor ainda exista para mim.
O que, pensando bem, eu duvido.

Duvido porque, para mim, o amor virou um jogo de regras sobre o que fazer e o que não fazer. Ou melhor, o que os olhos do mundo esperam que eu seja.

Talvez esteja chegando a hora de, com uma dor no peito mais extrema e, no fundo, com um grito na garganta maior do que qualquer sentimento lúcido,  colocar um ponto final. É bom que esteja aqui. É bom que ainda exista um mundo onde apenas existam raras almas, onde a dor que existe em mim possa ser expressada.
É bom que eu ainda possa escrever minhas dores em algo como a Internet. A forma que achei de retratar a dor.
Afinal...
Não posso ter o direito de escrever quando sinto dor, pois posso me expor;
Não posso me expressar a não ser de forma direta - eu, que sempre vi na forma direta todos as armas possíveis do dilaceramento de mim.
Ao mesmo tempo,  algo me machuca na possibilidade de alguém não existir mais... Que penso se não seria melhor não existir primeiro.

O amor destrói.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Crítica literária feita para um livro que eu nunca publiquei...

Num dia desses, do nada, lembrei da primeira história que escrevi.
Tinha 16 anos. Quando comecei, que fique claro. Escrevia febrilmente minhas coisas até as portas do vestibular - meu primeiro - começarem a surgir no horizonte. Retomei e finalizei a história aos quase 18 anos, quando estava no período entre minha última aula no Ensino Médio e a primeira no curso de História, naquela coisa de "ei, eu preciso terminar isso.".
Eu não sei quando foi a última vez que o li. Que não está comigo, é fato - especialmente se foi entre 2007 a 2009, quando rolou a reforma geral em casa e muito papel velho foi eliminado. Mas, era estranho: Eu o achava já tosco (hoje, bom... Eu explico mais adiante), mas adorava reler porque era uma coisa que eu tinha ACABADO.
Que fique claro: Eu já iniciei inúmeros projetos de escrita e abandonei. Eu sou assim com o ato de escrever, desde sempre (então, dizer agora que o TCC está sendo uma dificuldade para pôr no papel não é tão exagerado assim), de ter cadernos incompletos, histórias inacabadas, espaços em branco, falhas no percurso. Isso evoluiu, porque agora conto com um pouco mais de senso literário e tive outra história fechada na vida. Mas, ainda terei esta marca.
Mas, enfim, voltando o fio da meada...
A história era o seguinte: Numa fuga temporária do orfanato, um casal de adolescentes acabam testemunhando acidentalmente um crime (que seria uma queima de arquivo de um grupo criminoso, tipo a Máfia.). Acabam sendo vistos e começa uma perseguição bem louca, que incluía roubo, sequestro, morte.
Os dois, num dado momento, acabam por se abrigar na casa de um milionário, que demonstra um apego pela menina (a essa altura, lógico, o casalzinho (no começo da história, aquele típico casal da Malhação, uma treta desgraçada pra entender que se curtia) já tava na vibe do "namorando". Bom, eles ficaram na deles, desconfiados, até os dois contarem sobre o drama deles ao velho, que preparou uma arapuca e ia matar os dois de forma que parecesse suicídio. Quase mata a menina (cortando seus pulsos e provocando um incêndio - caramba, vocês dirão, olha a novela mexicana!), mas ela é salva pelo (preciso dizer quem?).
Ela sobrevive, eles descobrem que tem parentes vivos (a menina era uma sobrevivente, quando pequena, de um desmoronamento na favela que matou sua família e é o avô materno (rico e com a velha treta com o pretendente negro e pobre) que a acha; ele perde o pai missionário e é colocado no orfanato de forma temporária, porque ele não tinha nenhum contato com os tios e a Justiça foi procurá-los. No momento em que a história ocorre, os tios o descobrem e vão atrás dele) e, por tabela, se afastam um pouco, até por conta da tensão emocional. É um último momento de tensão (um dos bandidos reaparece) que faz eles voltarem. A história tem um epílogo, que é cinco anos depois, eles se reencontrando depois de uma viagem dela.
Tinha um prólogo também. Era falando sobre a morte da família de Tiffany (olha o nome que eu dei a menina!), mas pela perspectiva da mãe dela.
Como veem, pela estrutura, fui bem exigente, né? =P
Porque bebi de algumas fontes: Marcos Rey (Sozinha no Mundo), Pollyanna, Sidney Sheldon, provavelmente as novelas com Thalia e um bocado de músicas melosas que minha mãe botava no som, algumas eu copiava o trecho, incluindo na história trilha sonora...
Hoje, eu teria duas visões distintas sobre o que escrevi.

Uma: Como eu era péssima. Vi no meu texto inúmeras situações onde faltavam coerência, que estavam super datadas, onde faltava veracidade.
Falar sobre o relacionamento de um casal,'o que eles sentiam, francamente! Eu mal tinha contato com o masculino direito, em especial recíproco (era a nerdzinha da escola que ficava de suspiros nos outros nerds ou longe do círculo de populares) para ver que, apesar de entender por dentro as coisas da paixão, as minhas reproduções de contato físico eram péssimas, tiradas de Sabrina, Bianca, Júlia. IMAGINA UMA HISTÓRIA DESSAS PUBLICADAS, BICHO! Aí surgiu "50 tons de cinza" e eu descobri que a melhor coisa que fiz foi nunca ter posto meus caderninhos pra fora do círculo de coleguinhas da escola que leram (poucos!).
Sem contar o fato datado. Hoje, pesquisa no Google, redes sociais, arquivos digitais; enfim, não dava para o contato do pai com os parentes do moleque ou a demora de meses até que houvesse o contato do Juizado com os tios (desconsideremos o fator "marasmo", por gentileza!), nem a demora do vovô em descobrir a morte da filha e a existência de uma neta - claro que, aqui, ainda dá para enrolar argumentos...
Outra coisa troncha: Em um momento, os dois vão se abrigar num hotel melhorzinho, usando um cartão de crédito que eles surrupiaram de um dos bandidos. A bandida era mulher e meio que seduzia o moleque para matá-lo... Ah, esquece, já se imagina o fim da treta, né? O que importava era que os dois tavam de frescurinha um com o outro e ela ficou, à noite, na varanda, sozinha... Quando aparece um bandido chamado Montenegro (qualquer semelhança com o nome de um professor chamar-se-á calúnia, visto que faltava anos para encontra-lo... Kkkkk). A intenção do cara era tacar a Tiffany da varanda. Mas aí aparece o carinha, eles brigam e quem cai é o homem.
ATÉ AGORA EU ME PERGUNTO: COMO DIABOS ELES SAÍRAM DE LÁ SEM QUE UM DEPOIMENTOZINHO À POLÍCIA FOSSE DADO? Porque, né, naquele contexto, ia ter policial enquadrando todo mundo (sabe o marasmo? Não cita) e talvez uma TV filmasse a cara deles. Sem contar que eram de menor e assim teriam retornado para o orfanato...
Não adianta o Antonio Candido dizer agora (leitura teórica do TCC, mores) que a literatura não deve ser pensada como um registro fiel 100% da sociedade, que há as questões estéticas em jogo... Minhas histórias da adolescência tinham um pé na Glória Perez e a ideia de "voar".
Dois: Uma coisa bem viajada que pensei, ao refletir sobre a história dos protagonistas (dei um nome comum ao cara. Comum até demais, porque eu esqueci!), que pelo menos no que seria o processo da adolescência e a passagem para a vida adulta eu tinha noção. Mas era usando o exagero de um crime e perseguição, que eu fazia isso de maneira figurativa.
Falei do relacionamento dos dois: Típica novela de Malhação, a diferença é que inverti os papéis. Ela era a popular no orfanato (quase uma escola da novela), ele era o novato. A menina que brigava com ela virou fã do cara, por ele não se dar, inicialmente, com a inimiga - portanto, ele era o crush. Já Tiffany era no gato-sapato inconsciente com quem ela achava que era o melhor amigo (por quem a rival era doida na verdade). Quando começou, era essa historinha de quadrado amoroso, orgulhinho, preconceito, nada de novo. Mas, quando o crime acontece, a coisa muda de cara. Eles perdem o interesse nas coisas de Malhação e viram ao menos cúmplices no orfanato. Lembro que a fuga no orfanato mudou as coisas e o casal rejeitado se junta, depois um papo entre as duas acaba a briga (aliás, o tal amigo dela, tornei depois um baita embuste - tal que agora me arrependo de não ter feito a ex-rival dar um pé na bunda dele e ser empoderada...).
Era, tipo, como nossa vida. Até então despreocupada até algo te acordar pro mundo e vários caminhos terão que ser trilhados, lutas serão travadas. Isso é o que faz crescer.
A mensagem subliminar talvez fosse que, na juventude, algo nos levaria a perceber o mundo e que precisávamos vencer os desafios. Com um amor do lado, seria melhor vencer. Sei lá, acho que era isso.

Mas que bom lembrar o passado. Ou melhor, o que eu fazia nele. Mas talvez o lado tosco meu nunca tenha sumido de todo... Hehehehehehe.

sábado, 30 de setembro de 2017



Lembrei de uma noite,
após noitada de Serra Malte,
no bar.

Falamos de mil coisas,
família,
amigos,
até sonhos de filhos.

Já não estávamos normais.

Chegamos na parada.
Era tarde.
O ideal era pegar o Bacurau.

Parada inacreditavelmente
deserta.

Liguei o som do celular.
Botei para você escutar.

Aliás, você não gosta de Caetano.

Mas gostou do som.

Afastei-me um pouco,
você olhou para os lados,
se aproximou.

E me arrebatou,
em um beijo.

Apenas um beijo.


#histórias

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Nos diversos dias que te perdi...

Erros.
Meus.
Seus.
E eles decretaram um fim.
Ou ameaçam.
Mas este fim eu já espero.
Porque não acredito no silêncio sem acreditar na distância e sem acreditar no breve "acabou".
Simples.
Prático.

PRIMEIRO DIA:
Mando uma mensagem.
Preocupação aleatória.
Visualizado
e
não
respondido.
Apenas doeu o peito.
Dor
soltada
num
foda-se.

SEGUNDO DIA:
Me perdi de mim.
Fui a um dos nossos lugares.
Me isolei.
Fugi dos aproveitadores.
Tive esperança
de
te
ver.
(mas sabia da
impossibilidade)
Resultado:
Uma
dor
de
cabeça
adquirida na beleza ilusória
da Maria.
(se o fim for decretado,
ela também se irá)

TERCEIRO DIA:
Continuo
chorando.
Me maquiei
como há tempos
não fazia.
Bloqueei
mensagens
e
desbloqueei.
Contei a pessoas.
NÃO DISSE QUE NÃO TINHA
ERRADO.
Encontrei um pouco
de
paz
nas respostas.
O que não me impediu de chorar
quando senti
que o fim pode ser inexorável.
Fui andar na praia.
Parei no canto.

AQUELE...
Chorei com um careta.
Decidi:
Voltarei com ele
Assim que o fim for
dito.

QUARTO DIA (Hoje):
Acordei com vontade
de pintas as unhas.
Vermelhas.
Há tempos
não
pintava.
Botei músicas fora
do nosso
círculo.
Tenho muito
a pensar.
Coisas
para fazer.
Mas, ainda sinto vontade de chorar.
Porém,
sairei da toca,
farei um café,
vestirei a máscara.
E sairei para o mundo.

(talvez eu prossiga. Mas não já)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017



"Há dias em que acorda e, apesar de tudo, só se quer chorar. E chora por qualquer coisa. Por uma música de um desenho infantil, por ouvir algo que não agrade (sem que isso tenha tido a intenção) de outra pessoa, por qualquer música mais pensativa e forte, ao pensar na vida, ao se dar conta de coisas que acontecem e você ainda não sabe como fazer, o que pode acontecer amanhã.
Pode ser que, amanhã, tudo isso passe e eu volte a ser eu - ou finja que eu sou eu, voltando a esconder o universo sombrio que me invade.
Mas, hoje? Hoje é o dia de temperar tudo o que eu faça com a marca de uma lágrima."

sábado, 29 de julho de 2017

Você vai me perder.


Você pode me perder. E não falo na perda inerente a todo e qualquer ser humano - a inexorável morte, destino de todas as almas vivas. Falo de me perder enquanto mulher, enquanto alma, enquanto alguém, enquanto coração.
E tenha certeza de que isso está mais perto do que imagina.
Não lhe neguei tudo. Talvez o maior erro esteja nisso: não ter coração para negar, e mesmo quando negava, arrumar um jeito de compensar - de um jeito que nunca lhe desse a impressão de que foi por pressão, por acalmar ou para estabilizar nada.
Você vai me perder porque estou cansada.
Você vai me perder com o pagamento antecipado de todas as lágrimas que tenho vertido. De todos os silêncios que tens dado. De todos as vezes que eu me perguntei "se eu não sou interessante, por que diabos ele anda está aqui?". De todas as vezes em que uma palavra se tornou um tapa, que todos os não feitos se tornaram necessidades e que a carência se tornou uma necessidade.
Você vai me perder porque eu tentei, de todas as formas. E me pergunto como foi que aconteceu, como foi que me tornei cega e/ou decidi insistir tanto.
Você vai me perder aos bocadinhos, sem ao menos pensar.
Eu ainda vou tentar. Mesmo que doa.
Mas, ao mesmo tempo, cada vez menos querendo precisar de você. Cada vez menos o associando a mim. Cada vez menos querendo você em meu mundo.

Você provavelmente vai me perder no dia em que você se der conta e não aguentar.
Porque, na verdade, a pior perda está em não tentar, em não entender.
Você tem as alternativas.
Mas...

Quase total certeza desta verdade, que aos poucos se revela.
 


Não vens. E não te importas em vir, pois o que queres, sabe que terás.
Sabes que o coração sofre, sangra... Mas, sabe que terás o que queres.
Porque o que mais me enfraquece (ah, a fraqueza que tu deves tanto amar!) é depender de ti e dos teus carinhos.
Por mais que sejam raros.
Por mais que não sejam aquilo que eu espero.

Teu silêncio sobre mim é algo que apavora.
Que fere.
Que me dói.
Porque não é o mesmo que vejo ao meu redor.

Ao meu redor, há uma normalidade.
Sobre mim, o silêncio.
O nada.

E, esse nada aumenta.
Aumenta com a falta de palavras.
Aumenta com a facilidade em não pensares no que falas.
Aumenta com a igual facilidade em "compensar".
(mesmo que este compensar venha com teus lábios soltando a doce "fiz pra não deixar nervosa" ou "pra te acalmar")
Eu não preciso de calma. Apenas preciso de amor.

No entanto, negas o pouco que podes dar (tempo) e, ao mesmo tempo, reclamas o pouco que invisto (dinheiro).

Enquanto isso, eu me destruo em silêncio.
Vou morrendo.
Vou sofrendo.

E o que tu fazes?
Segues.
Assim foi e assim será.


Preciso aprender a seguir.
S.O.Z.I.N.H.A.

sábado, 15 de julho de 2017

#Dica(in)sana: Por que (ainda) precisamos ler a trilogia "O Estudante"?



"Meu nome é Roberto. Tenho quinze anos. Estou escrevendo a vocês,
porque preciso desabafar à grande dor que me queima lá dentro. Poderia
desabafar com um parente qualquer. Mas, a mágoa é grande demais, tão
grande que transborda de meu coração e enche o universo. Então fiquei
horas e horas em meu quarto, indo de um lado para outro, num desespero
sem fim, até que uma luz clareou meu cérebro: a ajuda só poderia vir dos
colegas de todos os colégios de meu país. Então sentei-me e comecei a lhes
escrever. Vocês, por favor, perdoem a letra trêmula que não vem de meu
estado emocional, mas sim da terra úmida que ainda cai de minha mão ,
apesar de já fazer horas que as enchi e só não tive coragem de jogar sobre o
caixão de meu irmão."

(CARRARO, Adelaide. "O Estudante", página 4)

Para ler a história completa, clique aqui.



Possivelmente, eu faço parte da última geração em que este livro, datado de 1975 e várias vezes editado, era uma leitura primordial. Ou talvez tal facilidade tenha vindo dos privilégios que tive ao longo da minha formação literária (mãe professora e depois trabalhando em biblioteca, acesso, na escola do meu Fundamental 2, a um riquíssimo acervo, meus anos de mediadora de leitura e o curso de Letras, atualmente). Não sei.
Li-o, pela primeira vez, aos 13 anos, não lembro bem quem foi a fonte (O CICM? Minha mãe? A memória não me ajuda). Lembro de como a leitura me fascinava e me chocava ao mesmo tempo, vendo a história de uma família rica, bem ajustada, com dois filhos legítimos e uma filha adotiva; de como esta família foi afetada com a entrada do filho mais velho (inicialmente um modelo de bom filho, irmão, amigo, pessoa) no submundo das drogas e do tráfico.
A história versava sobre como a adolescência (suas dúvidas e suas relações sociais) vira alvo fácil para motivar o vício nas drogas, e de como quem está no topo da cadeia dos entorpecentes visualiza quem é colocado dentro deste universo.
Vide um trecho:

"- Você acredita que o viciado, depois de tomar drogas, se sente forte, corajoso e vê coisas lindas,
mais coloridas etc.?
- Nem continue, pois eu estou rodeado de viciados, todos os meus guardas são viciados e lhe posso
garantir que qualquer viciado em drogas torna-se sonolento permanentemente, fraco nos estudos e não tem vontade de sair do lugar, fica mentiroso, grosseiro, descontrolado, insolente e sexualmente
fraco. Não respeita nem Deus, pais ou família, enfim podemos dizer que se torna um animal. Já conheci diversos viciados que se tornaram criminosos. O viciado esquece de si mesmo e daí sobrevêm grande desnutrição acompanhada pela falta de higiene, levando-o mais cedo para a morte. O único pensamento do viciado é arranjar dinheiro para comprar droga. Quando não consegue com os pais, parentes e amigos, ele vira ladrão. 
[...]
- Não entendo como você, conhecendo todos esses tétricos males, ainda continua com esse monstruoso comércio. Você não sente dó nem piedade por esses estudantes?
- Não. Sinceramente, eu os desprezo, porque eles é que estão se destruindo. Se eles não quisessem se
viciar, não se viciariam. Duvido que algum traficante convença meus filhos a se viciarem, a provar drogas. Os meus filhos têm um grande caráter e não se deixarão iludir, não são uns frustrados como esses idiotas estudantes que acreditam que a droga poderá fazê-los corajosos, machões."

(páginas 86 a 87)

E de que tipo de viciado estamos falando?
Vocês, com certeza, sabem dos viciados da Cracolândia. Já viram pelas ruas algum jovem/adulto/idoso em estado de prostração, ou o que chamaríamos vulgarmente de "podridão humana", "farrapo", o que valha. Viram o caso de Andreas Von Richthofen, a quem vemos o vício como marca da tragédia efetuada por sua irmã.
O debate de descriminalização das drogas está sempre sendo levado à baila. Não, eu não estou aqui fazendo apologia a quem use qualquer tipo de droga, mas lembremos que álcool ou cigarro são drogas, e drogas legais - cujo excesso/vício é um problema de saúde e não jurídico. No momento em que pensamos no quantitativo de pessoas que experimentaram ou se usam de alguma substância ilícita - e não se iluda, a quantidade é maior do que imagina, dê uma pesquisada no Google -, podemos notar que é QUASE impossível impedir o acesso às drogas, especialmente aos adolescentes, sempre em busca de coisas novas. (botei o quase em destaque para que lembremos das exceções, sempre das exceções).
Quem lucra com o tráfico? Não é o viciado, que gasta, gasta e acaba por não ser tratado de forma devida, é marginalizado. Não é o traficante menor, o pé-de-chinelo que sustenta seu vício ou o que acaba virando "chefe de favela/boca". São aqueles de cima, alguns que estão inseridos até mesmo dentro da nossa política (cês lembram do helicóptero de cocaína?). É o tráfico que intensifica, transtorna e mata. E é contra o tráfico que devemos focar nossa maior atenção.

No entanto, enganam-se quem pensa que a história aqui termina. "O Estudante" ganhou duas sequências, com o narrador-protagonista Roberto contando sobre sua família após a morte do irmão (sim, é spoiler, mas que eu já dei a dica logo no comecinho, né?)


O segundo livro, com o subtítulo "Mamãe Querida", aborda temas tão espinhosos quanto a questão das drogas: a depressão, centrada na figura da mãe e do pai de Roberto; a defesa por um tratamento humanizado frente aos descuidados dos hospitais psiquiátricos (esta parte vivida por Lídia, a mãe); o crescimento acelerado de Roberto, assumindo praticamente toda a família no período; a rejeição de uma escola de elite à Rosana, filha adotiva escolhida por Renato (o filho morto), por conta de sua cor (ela sendo mulata), mais as descobertas acerca da origem da menina. A história também enfoca com mais destaque o crescimento da jovem, que começa a desenvolver a faceta elitista (dando uma lida sobre Adelaide Carraro, percebi que ela tem obras bem focadas neste tema, o que faz dela considerada uma "escritora maldita") do orgulho, esnobismo e até mesmo do racismo, antes de se descobrir adotada. Sim, coloquemos a violência (sequestro e meninos de rua) dentro do enredo, já que são cruciais para o desenvolvimento dos acontecimentos com a família ao longo dos anos.
Não tenho ideia do ano de publicação deste livro, mas suponho que foi pelos anos 80 - visto que a história pega o período de tempo entre a primeira infância até os 15 anos de Rosana.
Nesta obra, os criados da família - Zefa, a cozinheira, e Walter, o motorista que vira o melhor amigo do protagonista - são personagens de destaque.

Mas, obviamente, vem mais emoções por aí.


O terceiro livro, com o subtítulo "Por um Brasil sem racismo", tem (que coisa óbvia, não?) o racismo como tema principal. Agora, temos Roberto, um adulto, e Rosana. O amor entre os irmãos adotivos, que acaba em casamento, é estremecido graças à personalidade da esposa, que não aceita ser considerada negra, renega a mãe biológica e a própria filha, nascida no meio da trama. Temos mais três personagens importantes dentro da história: Vítor, que aparece no livro anterior, mas aqui é de extrema importância para o final feliz da trama; Alex, o primeiro namorado de Rosana e a imagem fiel da alta sociedade ególatra e racista e Ângela, com quem Roberto se envolve e antagonista maior da irmã adotiva e depois esposa dele.
Este livro (dos três, o único que possuo e ainda mantenho comigo) data de 1992, mesmo ano do falecimento da escritora de câncer. A mensagem inserida está bastante focada no confronto entre as regras sociais e o amor independente da cor e condição social (podemos colocar a questão Deus na história, visto que é na fé que as situações são enfrentadas).

Nas três obras, Adelaide Carraro não se coloca como escritora, mas como alguém que transcreve o narrador-personagem. O diálogo entre os dois dá ao texto um tom mais informal, como se os dois, de certa forma, dialogassem pela narrativa.

"Como lhe disse, escritora, é uma narração mal escrita, pois meus quinze anos estão bem lá embaixo. Não tenho mais aquela veia poética ou narrativa, mas estou me esforçando. Não vá dizer que o livro está chato, hein?!"
(CARRARO, Adelaide. "O Estudante 3", página 58)

Mas, aí retorno à pergunta-título: Por que ainda temos a necessidade de ler a trilogia, considerando que o último livro possui mais de duas décadas de distância dos nossos adolescentes?

Pensemos:
Mudamos nossa visão sobre o tráfico?
Mudamos nossa visão sobre os problemas psiquiátricos?
Mudamos nossa visão sobre o esnobismo das elites?
Mudamos nossa visão sobre a violência?
Mudamos nossa visão sobre o racismo?

Se houver a resposta "não" a pelo menos uma destas perguntas, leia todos estes livros.
Infelizmente, em pdf, achei apenas um primeiro...
Mas é um começo.
E vai valer a pena.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

#algumahistorinha: Alice diante dos espelhos.

(ouça isso enquanto ler)



Quando entrei lá, no nosso pequeno pedaço de solidão, enquanto te distraías, deitei-me na cama, e confrontei-me com o espelho do teto.
Olhou Alice os olhos de outra pessoa.
Uma pessoa que não era ela.
Alice se perdia em pensares, no caminho ao País das Maravilhas, quem poderia ser se ela não fosse ela.
Eu só queria saber onde EU estava.
Certamente, não estava naqueles olhos tristes que já tinham vertido várias lágrimas sem teres visto.
Naquela face sóbria, naquela face sombria.

Já disse que odeio espelhos?
As câmeras e fotos não valem, elas registram um momento, não o todo.
Espelhos dão um olhar mais intenso em si mesmo.
Imaginemos vários, ao meu redor.

A música me fazia atordoar.
As lágrimas desciam sem esforço.
Chorava cada dor, cada cansaço.
Cada solidão.
Onde eu estava?
Por que deixei aquele corpo tão infeliz?

Ao saíres, fui eu a espairecer.
Água quente sobre o corpo.
Mergulho sem medo. Sem pena.
O calor me faz esquecer os desgostos.
Me recolocou a alma no lugar.

Importava que ali, agora, eu estivesse. Importava que aqueles espelhos me cercassem e eu acabasse por olhar para eles, que eles fossem minhas testemunhas.
Terminei, vesti-me, saí.

Na mesma cama, olhando para o mesmo espelho.
Tu, e apenas tu estavas ali.
Sem nada que lhe cobrisse.

"Por que não vens?"

Pedi que me buscasse.

"É muita manha."

E tu, apenas tu, despido de tudo que eras, viesse a mim, me levou para abaixo do espelho.
E, por tempos, esqueci dele.

Até acordar e perceber o reflexo daquele sobre outro espelho.
Na parede.
Mostrava apenas nossas pernas, juntas, em descanso.

Nunca amei tanto um espelho assim.
Aquele que transmitia toda a poesia do ato consumado.
Que vence toda e qualquer fotografia.

Alice busca outro mundo através do espelho.
Eu encontro algum motivo de seguir diante dele.
Dele?
Do espelho
e/ou
De ti.


(Se buscam significados, voltem noutra hora)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A Sororidade. Precisamos aprender a praticar.

"Dois nus numa floresta" (Frida Kahlo, 1939)
Antes de mais nada, você sabe o que é sororidade?
Sabe que esta palavra existe, mesmo que, no seu teclado, ela sempre apareça com o sublinhado vermelho, indicando erro?

Mas, vamos nós, definir o que é:

"Sororidade é a união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum."

A sororidade é uma das bandeiras do feminismo, baseado na perspectiva de que, na nossa sociedade, é a competição entre mulheres, é a nossa capacidade de julgá-las mais do que a dos homens que faz com que o machismo se perpetue. E o pior de tudo: como isso é encarado como algo natural, até mesmo com toques de humor.
Quer um exemplo?
Quantas vezes, em um filme ou novela, você já viu a cena de duas mulheres, em uma festa, usando o mesmo vestido e, consequentemente, tendo estes caminhos: 1. As duas putas com a pessoa que fez, porque deveria ser "exclusiva" a peça; 2. Uma comparando a outra, vendo se o vestido ficou melhor ou pior na outra (sentimento de inveja ou superioridade); 3. Rolar barraco.
E achamos engraçado tudo isso.
NÃO TEM GRAÇA NENHUMA!
Apenas mantemos a tradição de que cada uma de nós devemos ser perfeitas, em detrimento à outra.

Vamos à próxima questão (veja que ainda trato de questões cotidianas, "naturais"):
Em um relacionamento, rolou traição. Um término traumático. Enfim, o amor acabou, teve fim, hora de partir pra outra.
O que dizem mulheres para mulheres?
1. Não soube segurar o homem (caso sendo ela a traída ou abandonada);
2. É uma vagabunda (caso tenha sido ela quem traiu ou abandonou);
3. Destruidora de lares, a "outra" (no caso dela ser a razão do fim de um relacionamento).
Vocês estão entendendo? Temos conceitos já pré-definidos em relação à mulher, já preparados para a posição em que porventura ela esteja.
Por isso, precisamos do feminismo. Ou pelo menos, desta parte:

"Do ponto de vista do feminismo, a sororidade consiste no não julgamento prévio entre as próprias mulheres que, na maioria das vezes, ajudam a fortalecer estereótipos preconceituosos criados por uma sociedade machista e patriarcal."

Você não precisa ser feminista para entender que nós, mulheres, não precisamos competir. Nem precisamos nos julgar e nos classificar.
Vejam como os homens, mesmo quando errados, estão unidos. Juntos.
Então, façamos o mesmo:

Nos compreendendo,
nos unindo,
nos amando,
nos protegendo.

INDEPENDENTE DE TUDO, SOMOS MULHERES!



REFERÊNCIAS:
https://www.significados.com.br/sororidade/

Será que você também aguenta esse aqui?

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